As matrículas de 2027 já começaram. Não nas campanhas de marketing ou nas visitas de famílias às escolas, mas nas decisões pedagógicas tomadas, ou adiadas, neste momento. São elas que definirão quais instituições serão percebidas, dentro de dois anos, como preparadas para formar estudantes em uma sociedade moldada pela Inteligência Artificial. As famílias já mudaram a pergunta que fazem às escolas. Não perguntam mais se a instituição possui tecnologia, praticamente todas possuem, mas o que seus filhos aprendem com ela, por meio dela e sobre ela. Essa mudança sutil redefine a disputa por matrículas no setor privado. E ela parte de uma constatação simples:
A vantagem competitiva não está em ter Inteligência Artificial. Está em construir uma cultura de aprendizagem capaz de formar estudantes que compreendam a IA, questionem seus limites e saibam utilizá-la com discernimento.

O equívoco mais frequente entre gestores é tratar a Inteligência Artificial como uma aquisição: uma ferramenta a ser contratada, um laboratório a ser inaugurado, um item a ser exibido no material de captação. Escolas que seguem esse caminho descobrem, em pouco tempo, que equipamentos envelhecem e que famílias percebem quando a tecnologia é apenas adorno. A alternativa consistente é desenvolver uma cultura de inovação, na qual pensamento computacional, cultura digital, investigação científica, criatividade e resolução de problemas deixam de ser eventos e passam a integrar o currículo.
Há uma razão pedagógica para isso. O repertório exigido por esse novo contexto não nasce em oficinas pontuais. Ele é construído por progressão. Uma criança da Educação Infantil que brinca com sequências, testa hipóteses e observa relações de causa e efeito, inclusive sem telas, está construindo as bases lógicas que, anos depois, permitirão compreender como sistemas identificam padrões e tomam decisões a partir de dados. No Ensino Fundamental, esse repertório amadurece em letramento tecnológico: decompor problemas, criar algoritmos, prototipar, depurar erros e aprimorar soluções em contextos significativos. No Ensino Médio, o estudante já distingue decisões programadas por regras de decisões orientadas por dados, discute vieses algorítmicos e concebe soluções para problemas reais. É uma jornada cumulativa, e não se improvisa.
Vale insistir em um ponto que costuma passar despercebido: a chegada da IA não diminui a importância do pensamento computacional; torna-o ainda mais relevante. Quanto melhor o estudante compreende como dados são organizados, padrões são identificados e decisões são construídas por algoritmos, maior sua capacidade de utilizar a IA com discernimento, autonomia e criatividade, em vez de apenas consumi-la.
Construir essa cultura exige condições estruturais que vão além do hardware: currículo articulado à BNCC e à BNCC Computação, para que a Computação seja tratada como área de conhecimento, e não como atividade extracurricular; metodologia consistente, ancorada em ciclos investigativos nos quais os estudantes definem problemas, constroem, testam, iteram e comunicam; e projetos interdisciplinares que conectam tecnologia às demais áreas do conhecimento.

Mas a experiência mostra que o fator decisivo continua sendo humano. Os melhores resultados surgem quando a inovação chega de forma estruturada, integrando currículo, formação docente, materiais, tecnologia e acompanhamento pedagógico. Sem essa integração, a tecnologia tende a ser utilizada de forma episódica, sem produzir mudanças duradouras na aprendizagem. E convém desfazer um temor recorrente: a IA não substitui o professor. Quando a IA transforma registros de aprendizagem em evidências para a decisão pedagógica, como rubricas, portfólios e leituras individualizadas de desempenho, o docente ganha tempo e precisão para personalizar percursos e intervir onde realmente importa. A tecnologia bem empregada devolve o professor ao centro do ato pedagógico. Afinal, quanto mais eficientes se tornam as ferramentas, mais valiosa se torna a capacidade humana de orientar, interpretar e formar.
Para o mantenedor, há ainda uma consequência estratégica. Em um mercado onde infraestrutura, marketing e tradição já não bastam para diferenciar instituições, a capacidade de demonstrar um projeto pedagógico consistente para a formação que o futuro exige torna-se um ativo de percepção de valor. Escolas que traduzem essa visão em prática fortalecem sua reputação e reduzem a necessidade de competir apenas por preço ou infraestrutura. O valor percebido pelas famílias passa a ser construído pela qualidade da formação oferecida, e é dessa percepção que nascem retenção e novas matrículas.
As matrículas de 2027 serão conquistadas muito antes de 2027. Não pelas escolas que exibirem os equipamentos mais recentes, mas por aquelas que tiverem transformado tecnologia em aprendizagem, inovação em cultura institucional e Inteligência Artificial em uma competência desenvolvida com intencionalidade, do primeiro dia da Educação Infantil ao último da Educação Básica. Quando a família de 2027 explicar por que escolheu aquela escola, dificilmente a resposta será “porque ela tinha Inteligência Artificial”. Será porque ela soube ensinar seus filhos a pensar em um mundo transformado por ela. Essa resposta está sendo construída agora, nas escolhas curriculares, na formação dos professores e na coragem de construir, desde hoje, a escola que as famílias escolherão amanhã.

Sobre o autor
Marcos Pollo atua há 30 anos na interseção entre educação e tecnologia. Licenciado em Matemática e bacharel em Análise de Sistemas, construiu sua carreira ajudando escolas a integrar inovação, currículo e tecnologia. É cofundador e COO da VIA Education, edtech que apoia mais de 500 instituições de ensino no desenvolvimento de programas STEAM, de Computação e de Inteligência Artificial alinhados à BNCC. É Colunista do Guia Eventos Escolares
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